SAUDADES DE CASA / HOMESICKNESS: COMO DRIBLAR

Enquanto ainda não saímos do país, é aquela ansiedade louca, uma vontade de sair de uma vez. O mundo lá fora parece ser só maravilhas. Ou mesmo que saibamos que possam haver percalços, racionalizamos que há mais coisas para gostar do que não gostar naquele país dos nossos sonhos, seja ele Canadá, Irlanda ou outro canto.

Afinal de contas, lá é muito mais seguro, moderno e justo… Até aqui tudo muito racional. O problema é que felicidade não se compra com ruas pavimentadas e parques limpinhos. Sim, reconheço que estas coisas estabelecem um bem-estar, um suspiro tipo “ah, enfim no primeiro mundo…”

Mas o que fazer nesse primeiro mundo sem ter como virar para o lado e comentar isso com o melhor amigo? Estou exagerando a importância disso? Pode ser que sim. Mas minha teoria de almanaque baseia-se na simples observação da compulsão que temos por compartilhar coisas – seja nas redes sociais, na câmera que registra freneticamente cada momento importante (ou não) da vida, ou na ligação quase que automática que fazemos ao final de um encontro com alguém especial para contar para a amiga como foi.

E tem mais: o cara se muda para os EUA, para a Austrália, seiláonde, mas muitas vezes continua não tendo acesso a estas coisas boas. Ele pode ver as lindas luzes da cidade, os carros bonitos, mas vive à margem disso, não podendo de fato usufruir desse mundo.  É muito normal o imigrante sentir um declínio no seu padrão de vida nos seus primeiros meses (ou até anos) no novo país. No Brasil talvez morasse em casa própria, mas lá na Austrália tem que dividir a casa com mais 10. Comia em restaurante toda semana, agora reza para a grana chegar para comprar um fardo de noodles.

É muito louco o que isso faz com a cabeça da pessoa. Vai-se para o exterior viver uma “vida melhor” só que esta tal de melhora muitas vezes demora bastante pra chegar. E é aí que a saudade aperta. Dá saudade até do porteiro do prédio, do travesseiro. Dá saudade da familiaridade com os cheiros e esquinas que você já navegava de olhos fechados. Dá saudade daquele entendimento sem palavras que rolava com as pessoas da sua cultura.

Isso pode muitas vezes pegar o imigrante de surpresa e até deixá-lo envergonhado, com medo de falar a respeito, pois isso para muitos é quase como admitir uma falha, uma fraqueza.

Saudades, ou aquela palavrinha em inglês que rapidinho vai começar a fazer parte de seu vocabulário – homesickness – talvez o persiga por um bom tempo. Mas a boa notícia é que tudo pode melhorar.

Se saudades do Brasil não faz parte seu seu vocabulário, parabéns!

Mas para o resto de nós,  aqui vão algumas dicas de como sofrer um pouquinho menos.

Moro no exterior há mais de dez anos, todas as dicas abaixo foram testadas por mim e aprendidas na marra.

Ilhabela, SP

 

  • Não dê bola para os que dizem que você não deveria pensar assim

Tem muita gente bem intencionada que lança palavras de apoio tipo:

“Eu daria tudo para estar aí no seu lugar!”

“Se um dia eu for, nunca mais volto”

“Saudades dessa Merda? Tá louco!”

Essas boas intenções não ajudam em nada, estas pessoas nitidamente discordam de você. Apesar do que estas pessoas querem te fazer pensar, acredite, seu sentimento é válido e a boa notícia é: há grandes chances de que irá passar, ou pelo menos se tornará uma coisa mais manejável.

 

  • Permita-se este sentimento

Isso é tão normal quanto coração partido e unha encravada. Parabéns, você é normal.

Lembre-se do quanto de coragem foi necessário para tomar essa atitude e ir morar fora. Lembre-se dos seus sonhos, de todo investimento de tempo e dinheiro. Todo ganho é também uma perda, e ir para o exterior foi uma escolha. O negócio agora é aguentar como gente grande as consequências menos prazerosas desta escolha.

 

  • Entenda que leva tempo

A saudade é pior nos primeiros minutos, dias e até meses. A coisa tende a normalizar, então seja paciente. Você vai se sentir horrível por um tempo, e não se preocupe em esconder isso. A turma do deixa disso também passou pelo mesmo problema, mas talvez tenha escondido o sentimento porque, afinal, oh, “qualquer país é melhor que o Brasil” na opinião deles. Uns sofrem mais, outros menos, não tem certo ou errado ou prazo determinado pra acabar. Sentir saudades não é coisa de gente fraca ou gente que não enxerga os problemas brasileiros. É coisa de gente que foi criada com amor e carinho e que valoriza o calor humano e a cultura do seu país.

 

  • Desligue um pouco do Brasil

A pior coisa é acabar um namoro e continuar encontrando o ex em tudo que é canto. O melhor geralmente é tratamento de choque, e assim, quando você reencontra a pessoa, ela é só mais uma. O Brasil é seu ex por enquanto.

Avise os amigos que você só tem tempo para skype e whatsapp 1x por semana. Pare de correr atrás de paçoquinha e  do sonho de valsa. Evite noites de forró. Passe por um período de desintoxicação, go cold turkey,  pelo menos por agora enquanto a ferida está aberta. Quando sentir-se livre do vício, pode voltar a comer uma feijoada lá de vez em quando.

 

Matando as saudades dos amigos e do coração de galinha.

Matando as saudades dos amigos e do coração de galinha.

  • Faça uma imersão na cultura local

Preencha aquele espaço em branco deixado pelo forró e pela paçoquinha. Experimente as coisas estranhas do país que te acolheu, abrace a cultura deles. Faça um esforço para dançar aquela música esquisita que todos os locais sabem cantar , e trate de comer aquele bicho estranho, beber aquela bebida amarga. Não faça nojinho antes de tentar. Ou tente mesmo com nojinho. Aprenda que muitos gostos são adquiridos com tempo e que não é na primeira vez que vai descer redondinho. Acima de tudo, respeite e abrace a nova cultura. Isto é especialmente importante para quem estiver sofrendo de homesickness. Tem que de alguma forma preencher aquela lacuna, aquele fim de semana livre sem o churrasco com os amigos.

 

  • Não se contente com pouco

Não se engane, você está triste porque precisa de status. Não estou te chamando de superficial, materialista, estou apenas dizendo que quase todo mundo quer um pouquinho mais da vida do que sanduíche de atum todo dia. Todo mundo tem direito de sonhar em morar em um apê legal, ter seu carro e satisfação na carreira.

Não deixe que viver no exterior seja um fim por si mesmo, não se contente com pouco. Só porque você ouviu a história do cara que foi pra fora e trabalhou por 15 anos lavando prato e ficou rico, não tome emprestado o sonho deste cara.

Este sonho tem um lado bem dark que a gente não imagina quando vê de fora. Essas pessoas muitas vezes trabalham sem folga, por muitas horas, em horários indesejados, ganhando abaixo do salário mínimo. Por conta disso não têm vida social, e o pouco tempo que têm, só lhes resta pensar no Brasil…

Não estou condenando estas profissões mais simples, de maneira alguma, espero que você baixe a cabeça e trabalhe feito burro sem escolher muito no quê, se quiser chegar em algum lugar no país que não é o seu. Mas mantenha sempre o foco e estude para conseguir algo melhor, pois assim todas aquelas coisas que pareciam por um momento inatingíveis estarão cada vez mais perto. Você poderá aos poucos usufruir também das luzes da cidade,  adquirir o padrão de vida que já estava acostumado lá no Brasil, e por fim sentir-se cidadão. Coincidentemente, você aos poucos perceberá a saudade diminuindo de intensidade.

  • Esqueça do amor antigo encontrando um novo amor

Você só vai “curar-se” quando sentir-se suficientemente engajado, com opções de diversão e lazer a seu dispôr, sem muito tempo para pensar besteira.

Adquira um hobby ou procure um grupo que pratique aquilo que você gosta.

Tenha como meta falar mais a língua local do que Português. Exemplo – na frente da escola, ao invés de sair correndo e dar oi  para o grupinho de brasileiros, saia correndo para dar oi para alguém que você ouviu falando inglês. Ok, eu sei que a semelhança é uma boa desculpa para iniciar uma conversa com estranhos, mas há muitas outras maneiras de iniciar uma conversa, principalmente em um local como a escola. Pense nisso, o lugar está cheio de outras almas solitárias no mesmo barco da homesickness loucas para fazer amigos.

 

  • Curta a vida

Aprenda a viver consigo mesmo e curtir seus momentos de solidão. Saia para fazer o que mais gosta sem ninguém para te incomodar: dê longas caminhadas, coma guloseimas sem ouvir críticas, leia um livro, ouça música alta. Faça um curso, escreva, exercite-se. Você não precisa companhia para estas coisas.

Quando estamos no nosso país estamos tão acostumados a ter companhia pra tudo que muitos nem lembram que estes momentos de solidão podem ser legais e produtivos.

 

  • Voltar ou não, eis a questão.

Dizer “pra sempre” dói demais, não determine seu destino dizendo coisas como “nunca mais vou voltar” ou “vou viver aqui para sempre”. Permita-se viver as frustrações e felicidades do novo lar, decida mais tarde em que lugar você quer ficar. Pare um pouco de ouvir as pessoas e ouça mais a si mesmo!

Tenha uma meta de nunca passar mais do que X tempo sem fazer uma visitinha ao Brasil. Ter aquelas férias marcadas é muito mais animador do que dizer “não sei” cada vez que te perguntam quando que você vai rever sua família.

Voltar pode gerar um sentimento horrível de derrota, ou pode gerar uma sençação de alívio sem igual. Ninguém vai te ensinar isso, não tem certo ou errado. Vai lá e arrisca, mais uma vez, se é isso que teu coração está te mandando fazer.

Ilha Grande, RJ

Ilha Grande, RJ

 

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